Resistência ao glifosato – atualização 2008
Em 2008, o problema de ervas daninhas que se tornaram resistentes ao glifosato continuou a crescer.
Novas ocorrências foram relatadas na Austrália, Brasil, Paraguai e nos EUA, inclusive uma espécie que nunca havia sido registrada como resistente1. Urochloa panicoides foi encontrada em New South Wales, Austrália, infestando grãos de sorgo e lavouras de trigo2.
Além disso, populações de Chenopodium album (ançarinha-branca) com sensibilidade menor que a comum ao glifosato foram observadas em campos de soja nos EUA3.
O glifosato foi chamado de herbicida ‘que só se encontra uma vez por século’, devido à sua combinação exclusiva de alta eficiência e baixo impacto4. Sua popularidade agora ironicamente ameaça seu papel crucial na agricultura devido à resistência de ervas daninhas, e uma abordagem mais diversa ao manejo de ervas daninhas tem sido exigida pelos principais cientistas de ervas daninhas. Isso incluiria o uso de técnicas culturais e garantindo que herbicidas com modos de ação diferentes sejam empregados em uma abordagem integrada ao manejo de ervas daninhas.
Problemas continuam em 2008
As tendências dos últimos anos sugerem que haverá mais ocorrências de registro de ervas daninhas resistentesDefinição A capacidade herdada de uma planta/erva daninha de sobreviver a uma dose de herbicida normalmente letal para sua espécie. Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.weedscience.org/in.asp O Questionário Internacional de Ervas Daninhas Resistentes a Herbicidas monitora a evolução de espécies resistentes e avalia seu impacto. Todos as ocorrências confirmadas de novos casos são listadas. antes do final do ano1. Em 2006, 15 ocorrências foram registradas e em 2007 houve nove. Nas duas últimas estações houve relatos casos que ilustram bem a extensão e escala gerais do problema.
A maioria das ocorrências ocorre em lavouras GM resistentes ao glifosato, nas quais o controle de ervas daninhas depende muito do glifosato. Outras ocorrem em situações onde houve uso intensivo do glifosato por muitos anos.
Em 2008, os casos em lavouras GM, principalmente de soja, envolveram o amarante peregrino (Amaranthus palmeri) em muitas lavouras do Mississippi, EUA e capim-amargoso (Digitara insularis) no Brasil e no Paraguai. Em 2007, os casos foram relatados a partir de situações não agrícolas, nas quais o glifosato se tornou o meio padrão de controle de ervas daninhas, às margens de estradas na Califórnia e ao longo de estradas de ferro na República Tcheca, onde espécies de Conyza (buva, rabo de égua e pulicária) se tornaram resistentes.
As ervas daninhas que desenvolveram resistência ao glifosato são tipicamente aquelas com genética complexa e diversa, que oferece a maior oportunidade para a presença de genes de resistência. A primeira erva daninha resistente ao glifosato observada, Lolium rigidum, é um bom exemplo, assim como outras, como Conyza canadensis (buva, rabo de égua), e espécies de Amaranthus (amarantes) (Tabela 1). Outra característica são amplas áreas de germinação. Os amarantes se tornaram um problema grave no Missouri, EUA, com algumas populações apresentando resistência múltipla a três modos de ação de herbicida. Como o pólen do amarante é muito pequeno, 10 vezes menor do que o pólen do milho, talvez se desloque um quilômetro, e, como o agrônomo do Estado do Missouri, Julie Abendroth, diz “A disseminação do pólen é um grande fator de resistência – se você estiver fazendo um bom manejo, mas seu vizinho não, isso é um problema5”.
Tabela 1. Ervas daninhas confirmadas oficialmente como tendo populações resistentes ao glifosato1.
| Espécie de erva daninha | Nome comum | País/Região onde está presente | Primeiro registro |
|---|---|---|---|
| Gramíneas | |||
| Lolium rigidum | Azevém-anual duro | Austrália, Europa, EUA, África do Sul | 1996 |
| Eleusine indica | Potentilha | Malásia | 1997 |
| Lolium multiflorum | Azevém-anual italiano | África do Sul, EUA, Espanha | 2001 |
| Sorghum halepense | Capim-massambará | Argentina, EUA | 2005 |
| Digitaria insularis | Capim-amargoso | América do Sul | 2006 |
| Echinochloa colona | Capim colônia | Austrália | 2007 |
| Urochloa panicoides | Austrália | 2008 | |
| Ervas daninhas de folhas largasDefinição As folhas são "largas", ao contrário das folhas "estreitas" das gramíneas. Também chamadas 'dicotiledôneas' por terem dois cotilédones (folhas primárias produzidas pela semente), enquanto as gramíneas são 'monocotiledôneas' por terem apenas um cotilédone. Referências e Recursos Confiáveis Online http://iws.ucdavis.edu/ A Sociedade Internacional de Ciência de Ervas Daninhas representas associações individuais em todo o mundo. Detalhes dessas associações regionais estão listados. | |||
| Conyza canadensis | Buva | África do Sul, Espanha, Am. do Sul, EUA | 2000 |
| Conyza bonariensis | Pulicária-peluda | África do Sul, Espanha, Am. do Sul, EUA | 2003 |
| Plantago lanceolata | Tanchagem chifre-de-veado | África do Sul | 2003 |
| Ambrosia artemisiifolia | Artemisa comum | EUA | 2004 |
| Ambrosia trifida | Artemisa gigante | EUA | 2004 |
| Amaranthus palmeri | Amarante peregrino | EUA | 2005 |
| Amaranthus rudis | Amarante comum | EUA | 2005 |
| Euphorbia heterophylla | Copo-de-leite selvagem | Brasil | 2006 |
Pesquisas recentes confirmaram que as ervas daninhas se tornam resistentes de duas maneiras. Em alguns casos, o movimento do glifosato das folhas pulverizadas para os pontos vegetativos é muito deficiente6. Esse geralmente é o caso em Lolium rigidum e Conyza canadensis. Em outras populações resistentes, a enzima EPSP sintase, que é normalmente inibida pelo glifosato, é sutilmente alterada na mutação de um único aminoácido tornando-a muito menos sensível, por exemplo, Lolium multiflorum e Lolium rigidum7,8.
Por que o glifosato se tornou menos eficiente e que lições os agricultores e cientistas de ervas daninhas estão aprendendo sobre como evitar a resistência de ervas daninhas?
Lições aprendidas
Um dos maiores experts em resistência de ervas daninhas, Prof. Steve Powles, diretor da Iniciativa sobre Resistência a Herbicida da Austrália Ocidental recentemente analisou o que atualmente se conhece por ervas daninhas resistentes ao glifosato – e como superar o problema9.
Powles acredita que o glifosato foi amplamente utilizado por mais de 20 anos antes que se percebessem ervas daninhas resistentes por duas razões principais. Primeiro, como o glifosato não tem efeito residual no solo, as novas florescências de ervas daninhas que emergem após a aplicação não sofrem nenhuma pressão seletiva. Segundo, ele era usado apenas como parte de um sistema diverso de manejo de ervas daninhas que envolvia outros métodos de controle: mecânico, cultural e uma grande variedade de herbicidas seletivosDefinição Um produto químico usado para eliminar somente certos tipos de ervas daninhas (ou seja, ou as ervas daninhas gramíneas ou as de folhas largas). Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.weeds.iastate.edu/ Uma inestimável fonte de informações contemporâneas sobre herbicidas e ervas daninhas da Iowa State University.. O uso de métodos diferentes tende a garantir que quaisquer ervas daninhas que sobrevivam ao glifosato sejam mortas por outro meio.
Com o uso intensivo de um único modo de ação herbicida, as ervas daninhas resistentes certamente surgem com o tempo. Entretanto, oportunidades para que as ervas daninhas resistentes sobrevivam e prosperarem foram multiplicadas pelo sucesso das lavouras GM tolerantes ao glifosato, onde o controle de ervas daninhas depende apenas do glifosato. Esse sistema simples de controle de ervas daninhas é muito econômico para os agricultores, porém o tempo mostrou claramente que é possível abusar do mesmo. De maneira semelhante, sistemas de plantio diretoDefinição
Também conhecido como lavoura de conservação ou plantio direto, é uma maneira de cultivar lavouras ano a ano sem perturbar o solo através do preparo do solo, ou seja, cultivo do solo geralmente com implementos aplicados por trator.
Referências e Recursos Confiáveis Online
http://www.no-till.com/ Um portal de informações online sobre o plantio direto., que têm muitos benefícios, inclusive evitar a erosão do solo, sequestrar carbono e economizar combustível, estão se popularizando, mas significa que as ervas daninhas não são enterradas por aragem10.
Outro ‘guru’ australiano da resistência de ervas daninhas, o Prof. Chris Preston (Universidade de Adelaide) viajou pelo Arkansas, EUA, esse verão e comentou sobre o amarante peregrino resistente ao glifosato que viu: “Os agricultores daqui usaram o plantio Roundup Ready com glifosato como único herbicida, ao mesmo tempo que abandonaram o preparo do solo. Nesse sistema, a única coisa que realmente controla as ervas daninhas é o glifosato. Faça-o por uma década e terá problemas”11.
Soluções
Em New South Wales, Austrália, a descoberta, esse ano, Urochloa panicoides resistente se seguiu à confirmação da resistência em Echinochloa colona (capim-arroz, capim colônia). Os cientistas de ervas daninhas locais enfatizaram a necessidade de um manejo integrado de ervas daninhasDefinição Um sistema de suporte para uma decisão de proteção à lavoura que se concentra na prevenção ou supressão de longo prazo de problemas com pragas com o mínimo de impacto sobre a saúde humana, o meio-ambiente e organismos que não são alvos. O MIP leva em consideração todas as técnicas e táticas disponíveis de controle de pragas (de cultivo, mecânicas, biológicas, químicas) o MIP enfatiza o crescimento de lavouras saudáveis para uma melhor produtividade com a mínima interferência possível nos agroecossistemas. Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.ipmcenters.org/ O Site Nacional do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para o Sistema de Informação dos Centros Regionais de CIP fornece informações sobre commodities dos EUA, pragas e práticas de manejo de pragas, pessoas e problemas. (MIED), incluindo herbicidas de modos de ação diferentes, para proporcionar a diversidade necessária. “O manejo integrado de ervas daninhas é como uma apólice de seguro”, disse Andrew Storrie, especialista em ervas daninhas do Dept. de Indústrias Primárias: “Pague um pequeno prêmio agora com a adoção de MIED, ou arrisque pagar um prêmio maior mais tarde, quando ocorrer resistência a herbicida2”.
Quando Preston esteve nos EUA nesse verão, ele comentou sobre uma nova técnica chamada controle de fixação de semente. Isso envolve a substituição por culturas de folhas cerosas, como ervilhas ou lentilhas e pulverização de um produto baseado em paraquat no final da estação. As ervas daninhas resistentes da lavoura são mortas antes que possam fixar sementes e reabastecer o banco de sementes do solo. A pulverização tente a escoarDefinição A ocorrência de excesso de líquido (como chuva) que origina se origina na parte alta do terreno e se acumula além da capacidade de absorção do solo. Quando isso ocorre, o excesso de líquido escorre pela superfície até chegar à água superficial mais próxima (reservatório d'água, lago, rio). Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.sowap.org/index.htm SOWAP (Proteção do Solo e da Água, na sigla em inglês) é uma colaboração entre indústria, ONGs, universidades e agricultores para teste de diversos métodos de manejo do solo específicos do local, baseados no conceito de lavoura de conservação. Leva em conta aspectos econômicos e ambientais, inclusive efeitos na erosão do solo e escoamento. da lavoura, mas os agricultores aceitam um pequeno dano para superar o problema das ervas daninhas resistentes ao glifosato11.
Outros pesquisadores australianos desenvolveram modelos computadorizados de MIED em ação. Simulações feitas por um período de 30 anos mostraram que o uso de MIED pode evitar o surgimento de ervas daninhas resistentes ao glifosato em algodão GM12. Um trabalho sobre como reduzir as chances de surgimento de resistência no amarante peregrino no algodão GM dos EUA usando modelos de simulação deve ser publicado em breve. Ele mostrou que a introdução de modos de ação diferentes é crucial. Usar apenas aplicações únicas anuaisDefinição Ervas daninhas que completam seu ciclo de vida em uma estação de crescimento, ou ano. Da semente à flor e de volta à semente antes do ano terminar. Referências e Recursos Confiáveis Online http://iws.ucdavis.edu/ A Sociedade Internacional de Ciência de Ervas Daninhas representas associações individuais em todo o mundo. Detalhes dessas associações regionais estão listados. de glifosato levaria ao desenvolvimento de resistência no amarante peregrino em apenas quatro anos no cenário mais pessimista.
Nos EUA, o especialista em ervas daninhas da Ohio State University, Prof. Mark Loux, diz que a maior parte do rabo de égua (Conyza canadensis) presente em campos de soja Roundup Ready em Ohio no verão de 2008 seria resistente ao glifosato13. Loux enfatiza a importância do planejamento para remover o rabo de égua resistente ao glifosato antes de plantar a lavoura, e novas ondas de germinação devem ser evitadas antes que as plantas da nova lavoura sombreiem as ervas daninhas. Ele descobriu que a melhor opção é adicionar um herbicida residual e 2,4-D éster ao paraquat e usar essa mistura para exterminar o rabo de égua enquanto ainda está pequeno, no estágio de roseta.
David Hallauer, um agente de extensão da Kansas State University também defende o combate precoce contra ervas daninhas problemáticas, como o rabo de égua, principalmente se houver suspeita de resistência, usando aplicações de atrazina no outono ao invés de esperar até a primavera14. A adição de um adjuvante e do paraquat ou a co-aplicação com fertilizante de nitrogênio líquido melhora o extermínio. Obviamente, deve-se tomar cuidado com os herbicidas residuais para garantir que não haja problema de lixiviaDefinição O processo natural pelo qual as substâncias solúveis em água são carregadas para baixo, através do solo, até as águas subterrâneas. Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.agr.gc.ca/nlwis-snite/index_e.cfm?s1=pub&s2=hs_ss&page=16 Um capítulo de um livro online chamado 'The health of our soils' (A saúde de nossos solos) postado no site do Departamento de Agricultura e Agro-Alimentos do Canadá.ção ou dano à lavoura depois de plantada. O uso de um programa pós-emergência baseado em paraquat evita a preocupação com a lixiviação e tem a vantagem de permitir o plantio imediato de qualquer nova lavoura.
Voluntárias de lavouras anteriores também são problemas daninhos, caso sejam de culturas tolerantes ao glifosato, e requerem métodos de controle alternativos. Loux, da Ohio State e colegas da Universidade Illinois, Penn State University e Purdue University descobriram que o paraquat na forma de Gramoxone Inteon, com ou sem metribuzina foi a melhor opção para controlar o milho voluntário com altura até maior que 25 cm, embora os melhores resultados tenham sido obtidos com brotos com menos de 15 cm15. O herbicida não seletivoDefinição Um produto químico usado para eliminar somente certos tipos de ervas daninhas (ervas daninhas anuais gramíneas ou de folhas largas). Referências e Recursos Confiáveis Online http://www.weeds.iastate.edu/ Uma inestimável fonte de informações contemporâneas sobre herbicidas e ervas daninhas da Iowa State University. alternativo, glufosinato (Liberty) só foi eficaz em brotos muito pequenos.
Referências
- Questionário internacional sobre ervas daninhas resistentes a herbicida http://www.weedscience.org/in.asp
- http://bombala.yourguide.com.au
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- Simarmata M & Penner D (2008). The basis for glyphosate resistance in rigid ryegrass (Lolium rigidum) from California [A base da resistência ao glifosato em azevém-anual duro (Lolium rigidum) da Califórnia]. Weed Science, 56, (2), 181–188
- Powles SB (2008). Evolved glyphosate–resistant weeds around the world: lessons to be learnt (Ervas daninhas resistentes ao glifosato evoluídas pelo mundo: lições a aprender). Pest Management Science, 64, 360-365
- Vila-Aiub MM, Vidal RA, Balbi MC, Gundel PE, Trucco, F & Ghersa, CM (2008). Glyphosate-resistant weeds of South American cropping systems: an overview (Ervas daninhas resistentes ao glifosato dos sistemas de plantio Sul Americanos: uma visão geral). Pest Management Science, 64, 366-371
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